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O calendário de vacinação e a quebra de expectativas

O calendário de vacinação e a quebra de expectativas

Um cuidado precisa ser tomado quando falamos de calendário vacinal: o de que a expectativa é mãe da decepção. Recentemente, governadores e prefeitos divulgaram planos de vacinação que prometem imunizar toda população vacinável entre agosto e setembro. Nesta semana, o prazo foi abraçado, também, pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. Mas há um problema no meio do caminho. Ou melhor, lá no início do caminho. Porque, no final das contas, para cumprir o plano vacinal, é preciso ter vacina.

E faltam vacinas. Na terça-feira, sete Capitais, entre elas São Paulo e Porto Alegre, anunciaram que a aplicação da primeira dose do imunizante foi suspensa porque acabaram as vacinas. Não é a primeira vez que isso acontece. Há cerca de dois meses, no Rio Grande do Sul, por exemplo, houve atraso de mais de duas semanas para aqueles que precisavam da segunda dose de Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan. Outro exemplo são os imunizantes da Janssen, que chegaram com atraso de quase uma semana do que havia sido divulgado inicialmente.

Claro. É importante dar uma previsão para população. Isso permite que a sociedade e o próprio serviço de imunização se organize e se planeje. Ainda, funciona como um fator de pressão para órgãos públicos agilizarem suas políticas sanitárias. Também cria no povo um ar de esperança. Mas é justamente por essa importância que é preciso ter cautela.

Outro ponto importante deve ser observado nesse calendário: ele consegue prever o início da vacinação para um grupo de idade, mas não o seu fim. A partir da data X, poderão se vacinar quaisquer pessoas a partir de 18 anos. Mas quando 100% desse grupo estará vacinado? Os Estados e prefeituras já encontram dificuldade, agora, de vacinar toda população que já pode tomar o imunizante. Ou, também acontece, pessoas vão se vacinar na primeira dose, mas não voltam para a segunda fase da imunização. Estão, assim, com uma imunização incompleta e, em certa medida, ineficaz.

Lembrem-se: a cobertura vacinal é uma ação sanitária pública e coletiva. Especialistas apontam que atingiremos uma boa cobertura vacinal quando 70% da população estiver vacinada. Com as duas doses. Esse é o número que devemos atingir se queremos voltar a ter uma certa normalidade na nossa vida, como acontece hoje em Nova York, nos Estados Unidos, que já vacinou, com a primeira dose, mais de 70% da população.

Quais as soluções, então? No passado, seria ter adquirido mais doses com maior antecedência, o que garantiria mais segurança na entrega das vacinas. Agora, é importante manter uma boa relação com as farmacêuticas, entrar em contato constante para atualização da situação de produção e cultivar políticas diplomáticas com países que são fundamentais neste momento, como a China, principal fornecedora de IFA, uma das matérias-primas dos imunizantes. Também é preciso investir nos laboratórios nacionais, como a FioCruz e Butantan, responsáveis pelas duas marcas de vacinas mais aplicadas nos braços dos brasileiros: Oxford/Astrazeneca e CoronaVac. Esses são elementos que podem garantir que as expectativas do calendário vacinal não sejam quebradas. 

Escrito por

Daniel Giussani

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