77% dos legisladores federais tentarão se manter em atividade no congresso. Isso significa que três a cada quatro deputados concorrerão à reeleição. E a reforma política?

José Sarney. Foto: Pedro Ladeira
Todos estamos cansados da velha política, clamamos por uma renovação, por representantes que de fato nos representem, ou, que, no mínimo, entendam as nossas necessidades enquanto povo. No entanto, eleição após eleição, as caras da política continuam as mesmas de décadas atrás; parece que para nós, brasileiros, figurinha repetida completa álbum sim. Será que essa tendência é reflexo da falta de educação política do eleitorado ou do sistema político que facilita a perpetuação do poder?
Não é novidade para ninguém a falta de memória do eleitor brasileiro, que, passado o dia das eleições, esquece em quais candidatos votou. O processo de esquecimento é causado pela falta de interesse na ações e nas propostas do político; não raro, o eleitor vota no candidato que ele viu na manhã da eleição em um santinho na porta do local de votação.
A falta de informações do eleitor leva ele a votar nas figuras conhecidas, naquelas que surgem nos intervalos das novelas e telejornais, que acompanham as refeições da família brasileira. Importante relembrar daqueles que utilizam sua carreira nos meios de comunicação como um trampolim para a vida política. A tática não é nova, vem desde os tempos em que o rádio ocupava lugar central nas salas de casa; a visibilidade e o vínculo gerado pelos meios de comunicação são responsáveis por eleger muitos colegas de profissão a cargos políticos (o que pode ser bastante discutido sob o ponto de vista ético).
Contudo, ainda que o eleitor pesquisasse candidato por candidato, fiscalizasse os eleitos e cobrasse as tantas promessas de campanha, ele teria poucas opções para fugir das figuras carimbadas que passeiam há anos pelo Congresso. A explicação está no formato do sistema político-eleitoral brasileiro. A distribuição das verbas de campanha e do tempo de televisão é feita proporcionalmente à representatividade dos partidos no Congresso Nacional, ou seja, quanto mais políticos eleitos, maior será o dinheiro que a legenda receberá do fundo de campanha e maior será o tempo de televisão que o partido terá.
É importante lembrar que, nesta eleição, está proibido o financiamento de campanhas por empresas privadas. A principal fonte dos recursos virão através do fundo público eleitoral.
A partir dessa sistemática, cria-se o ciclo de perpetuação no poder dos grandes partidos, em especial, de algumas famílias — as quais atuam quase como oligarquias da República Velha. Para citar alguns exemplos, a família Sarney, na qual José Sarney (MDB) reina há mais de 50 anos em diferentes governos e cargos, ocupando a Presidência da República, em 1985, e, por último, o Senado, em 2015. Sua herdeira é Roseana Sarney (MDB), candidata ao governo do Maranhão.
Outro exemplo é a família Bolsonaro. O candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro (PSL) cumpre seu sétimo mandato na Câmara dos Deputados. Seus filhos, Carlos (PSC), Flávio (PSL) e Eduardo (PSL) cumprem, respectivamente, o quinto mandato como vereador da cidade do Rio de Janeiro, o quarto mandato como deputado estadual do Rio de Janeiro e o primeiro mandato como deputado federal de São Paulo.
Se quem elege mais congressistas tem mais espaço na televisão — o principal veículo de comunicação do Brasil — , possivelmente, grandes partidos continuarão elegendo mais políticos que partidos com menor tempo. Esses fadados ao ditado de quem não é visto, não é lembrado. Assim, nas próximas eleições, seguirá tendo mais tempo os mesmos, gerando um ciclo em que só tem lugar cativo na política as figurinhas repetidas.
O que pode quebrar, em parte, esse ciclo, é a internet, que, de certa forma, obedece suas próprias regras de visibilidade (além dos algoritmos, não esqueçamos). Na rede, a forma de se fazer política pelos moldes como conhecemos não cabe. A possibilidade de interação instantânea com os candidatos rompe com o distanciamento dos debates e entrevistas, obrigando eles, ainda que minimamente, a se comunicarem e ouvirem o eleitorado. Importante lembrar que o eleitor da internet tem se mostrado um trunfo — cabe decidirmos se para o bem ou para o mal. As chamadas fake news são rapidamente viralizadas na internet, ao passo que, uma parcela dos eleitores está atenta e fiscaliza os candidatos e suas falsas afirmações. De um jeito ou de outro, a internet está alterando aos poucos o funcionamento das eleições brasileiras, em outubro será possível ver as consequências das mudanças causadas pela web.
Quanto aos candidatos que disputam o pleito, esses apresentam poucas mudanças. Utilizando como exemplo os candidatos à Presidência da República, podemos perceber que poucas novidades são apresentadas. Antes das confirmações das candidaturas, nomes como Luciano Huck e Joaquim Barbosa eram cogitados, mostrando uma tentativa de fuga dos partidos a figuras políticas tão ligadas a escândalos de corrupção. Contudo, nem o apresentador, nem o ex-Ministro, aceitaram a incumbência.
As últimas seis eleições foram encabeçadas pelo PT e PSDB. Fugindo desse cenário, a eleição de 2018 apresenta Jair Bolsonaro como novidade — ainda que não seja um estreante na política: conforme mostrado acima, o candidato estará concorrendo pela primeira vez a um cargo executivo, mas já foi deputado por sete mandatos. Marina Silva (Rede) é uma velha conhecida dos eleitores brasileiros. Ciro Gomes (PDT) é figura política desde 1983.
Tempo de política não se traduz em eficiência, assim como, candidatos estreantes não necessariamente signifiquem mudança na velha forma brasileira de se fazer política: aquela que prioriza interesses pessoais e comerciais acima dos interesses do povo; aquela que dá um jeitinho em tudo, até nas leis; aquela que não representa mais ninguém, exceto aqueles que continuam a se beneficiar do sistema.
Mudar o jogo político implementado há tanto tempo (talvez desde a colonização) e tão arraigado na cultura e nas instituições brasileiras é complexo e demorado. No entanto, a mudança pode começar no dia 07 de outubro, com cada brasileiro e brasileira, que ao fazer valer o seu direito ao voto, deve pesquisar e buscar entender quais são as propostas defendidas pelos seus candidatos e se elas são aplicáveis dentro de um mandato (respeitando os trâmites legais e as limitações de cada cargo). Ainda, a Dona Maria deve esquecer que o candidato X lhe prometeu o asfaltamento da sua rua. Seu Antônio não pode levar somente em conta que o Y lhe prometeu uma consulta no posto de saúde. Isso são obrigações dos governantes, eles devem promover políticas públicas voltadas para as áreas de saúde, educação, desenvolvimento urbano, segurança. Não podem ser tratados como favores.
Escrito por

Daniel Giussani

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.