Reprodução: CasadoCinema
Se você não é minimamente fascinado por comédias românticas, parabéns: a ideologia romântica difundida pelo mundo todo lhe passou batido – reparemos que o tom irônico estabelecido nesta coluna é muito provavelmente fruto das desilusões da própria autora, que claramente não consegue escrever com objetividade. Anyways, desde pequenos somos cercados de romantismo barato que nos convence que o maior e melhor objetivo na face da Terra é simples: encontrar o amor da nossa vida. Não vamos entrar no mérito de que precisamos amar primeiro a nós mesmos, que temos que ser completos sozinhos e blah blah blah. Lógico que eu concordo que o amor próprio é o melhor tipo de amor, mas essa questão simplesmente não vem ao caso agora.

O fato é que todos temos, lá no fundo, o desejo de encontrar alguém que satisfaça nossos ideais de amor romântico. E é aí que entram as comédias românticas. Quem ainda não assistiu Para Todos os Garotos Que Já Amei, não teve a oportunidade de se identificar com a protagonista Lara Jean, que tem um crush inconveniente no namorado da irmã – não, esse não é o fator com o qual se identificar. Lara, como muitos librianos talvez, já teve uma quantidade considerável de paixonites (cinco, no total) apesar de sua pouca idade e, para cada um, escreveu cartas de amor que jamais enviou. No entanto, quando ela menos espera, as cartas são encaminhadas aos garotos por sua irmã mais nova, o que desencadeia uma série de acontecimentos incríveis, porém pouco críveis, que a levam a se apaixonar pelo menino de seus sonhos. Quem me dera a minha irmã se intrometer na minha vida pacata e provocar, sem querer, uma narrativa amorosa como a de Lara Jean.


Reprodução: Slashfilm
Eis o grande problema: estamos obcecados em viver uma comédia romântica. Todos queremos secretamente uma paixão intensa, avassaladora, que chegue de fininho e mude nossas vidas. Não seria simplesmente genial se nos deparássemos um belo dia com uma versão personalizada (para o nosso maior proveito) de Declan ou de Anna de Casa Comigo? e se apaixonar loucamente em apenas dois dias? Mas, na vida real, nada acontece em dois dias. Muito pelo contrário: os dois pombinhos provavelmente irão passar meses trocando olhares enigmáticos, que eles acreditam genuinamente ser uma maneira maravilhosa de demonstrar interesse, até que uma das partes vai se cansar – ou se deparar com alguém mais direto em suas atitudes – e perder o interesse. E assim, deixamos o outro pombinho, aflito, tentando desesperadamente reacender a chama de um caso que nunca nem aconteceu. 
Claro que sempre existe a possibilidade de um dos dois de fato tomar alguma atitude e iniciar o tão desejado romance mas, convenhamos, não é nem de longe tão divertido quanto aquela relação construída com um certo drama e uma certa dificuldade (tipo comédia romântica, sabe?). 
Para todos os efeitos, até o enredo de O Melhor Amigo da Noiva é válido para os mais românticos. Imaginem que lindo seria contar a história de como vocês sempre se amaram mas só conseguiram perceber – ou admitir – alguns dias antes do casamento de um dos dois com uma pessoa completamente aleatória que claramente não era o amor da sua vida! Tudo bem se demorar, o importante é que, quando acontecer, tenha aquele gostinho de amor verdadeiro. O grande problema desse cenário em particular é, na verdade, o melhor amigo. A gente quer viver a história, mas não com o melhor amigo da vida real. Queremos um novo: mais bonito, mais engraçado, mais inteligente… O parceiro ideal que, obviamente, não existe. 


Reprodução: AdoroCinema
E isso, infelizmente, vale mais para as mulheres hétero do que para os homens. Afinal, crescer à sombra das princesas da Disney e, inclusive, das próprias comédias românticas, acaba por criar um imaginário de amante ideal que, francamente, não condiz com a realidade. E o paradoxo é justamente esse: enquanto nós somos ensinadas a buscar um determinado tipo perfeito de homem, eles são ensinados, pela cultura machista da nossa sociedade, a se tornarem o exato oposto. 
Eis um dos motivos pelos quais nós, meros humanos, jamais teremos a oportunidade de viver, de fato, uma comédia romântica. Nós nunca seremos, quando sentados ao lado do nosso estimado amoreco, tão adoráveis quanto Kat e Patrick, de 10 Coisas que Odeio Eu em Você, ou quanto Alex e Rosie, de Simplesmente Acontece – imagine se não nos deparamos com um caso de paixão entre melhores amigos novamente, que surpresa. Também nunca teremos um “momento da verdade” – em que o casal finalmente expressa, da maneira mais eloquente possível, os seus sentimentos um pelo outro – tão profundo e harmonioso quanto… Bem, quanto o de qualquer comédia romântica, na verdade. No máximo poderemos vivenciar a situação embaraçosa de dizer frases soltas e incoerentes ao tão estimado crush em uma ocasião de bebedeira. 


Reprodução: Vix
E sim, os relacionamentos reais sempre se reduzirão a momentos de constrangimento, estranhamento ou desconforto porque (pasmem) não temos nossa vida idealizada por um renomado diretor de cinema ou por um roteirista excepcional. Somos, como já disse, meros humanos e não personagens absurdamente apaixonantes que tem a sorte de encontrar o amor verdadeiro na esquina. Mas muita calma nessa hora: talvez seja precisamente essas imperfeições e singularidades que fazem do amor real muito melhor do que o mostrado em comédias românticas.
Ou não. 
Escrito por

Luara Rodrigues

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