Desde que Lost encerrou seu mistério de seis temporadas em 2010 e dividiu o público ao redor do mundo, há uma notável falta de séries no modelo “caixa misteriosa” – aquelas em as informações são lentamente entregues por um longo período de tempo, criando muitas dúvidas e teorias para o espectador. Desconsiderando algumas exceções, como Westworld, da HBO, ou Twin Peaks, a televisão mudou na direção de uma narrativa mais tradicional, realista e baseada no formato de uma minissérie que conta uma história completa. Com Ruptura, no entanto, esse tipo de programação misteriosa volta. E o fez de maneira magistral. 

Na trama, Mark (Adam Scott) é um dedicado funcionário de uma estranha empresa. Seu trabalho é buscar elementos incomuns em uma série de dados aparentemente intraduzíveis. Fora do emprego, ele é um homem apático e solitário que não tem muito o que fazer ou oferecer. Até aqui a história parece bem simplória, certo? A diferença é que a empresa na qual Mark trabalha, chamada Lumon, desenvolve uma tecnologia onde a pessoa tem duas vidas totalmente separadas. Quando a pessoa está em casa, ela não tem lembranças ou noção alguma do trabalho. Já na empresa, não tem memórias de casa.

Assim, perguntas são feitas a rodo também. O que é esse processo de separação de memórias? Como ele é feito? Por quê? O que a Lumon faz de tão secreto para que esse processo seja tão importante? Quem são essas pessoas que trabalham juntas, mas só se conhecem da porta para dentro, e não têm memória nenhuma de quem são do lado de fora? E por que elas optaram por esse processo? São questões que passam pela nossa cabeça ao dar play em Ruptura.

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Em seis dos nove episódios da 1ª temporada, Ben Stiller dirige com um toque incrivelmente confiante, o que mostra aspectos diversificados na sua carreira como diretor. Stiller é esperto ao trazer a vida real sempre apática e gélida, cercada de neve, enquanto o trabalho surge opressor, de ângulos retos e cores firmes, embora limitadas. Ao enquadrar seus personagens isolados em cantos do frame, por exemplo, o diretor deixa claro o peso sob os ombros daquelas pessoas e o vazio que os acolhe.

O episódio 9 parece tão tenso não apenas por causa de sua escrita forte, mas também pela direção de câmera mais portátil e claustrofóbica. Como o episódio é seguido de várias tomadas longas e tomadas em POV (quando o personagem fala diretamente olhando para câmera), é um nítido contraste com o resto da direção calma dos episódios anteriores, mas serve como um exemplo notável da diversidade que Ruptura traz, mesmo em suas paisagens modernistas e enganosas que apresenta dentro do espaço de trabalho das indústrias Lumon.

A princípio, a trama da série pode parecer confusa. Mas tudo é muito bem amarrado pelo ótimo roteiro escrito pelo criador da série. E não para por aí. As direções de Stiller (que comandou os seis primeiros episódios) e de McArdle (que comanda os outros três) são magistrais, assim como a linda direção de arte e fotografia, e, o melhor de tudo, um elenco poderoso formado por ótimos atores (a maioria desconhecida do grande público) e uma dupla icônica formada por dois gigantes: John Turturro e Christopher Walken, que protagonizam as mais belas cenas desta primeira temporada da série.

À medida que a série continua, estabelecemos não apenas as motivações pessoais que fazem os personagens centrais da história participarem de algo como o procedimento de ruptura, mas também o mundo político que se concentra em cada momento dos episódios. Vemos vários protestos em relação ao programa de separação, políticos obscuros oferecendo seu apoio por razões sinistras, e bandas punk cantando em revolta contra o sistema que o programa está criando. Por mais que a série seja sobre os perigos de ignorar o trauma internalizado – como o personagem de Mark, que usa o local de trabalho para fugir da morte de sua esposa -, também serve como uma queda brutal do local de trabalho moderno, e como ela tenta destruir qualquer forma de individualidade de seus trabalhadores. Exemplo disso são as histórias de grandes e-commerces, como Amazon, que expõem a profunda vigilância interna cometida em seus trabalhadores, bem como as horas impossíveis sob as quais muitos são forçados a trabalhar.

 Ruptura entra no centro das atenções com um sentimento incrivelmente assombroso ao longo de seus nove episódios que parecem cada vez mais oportunos, a cada dia que passa. O conceito de dividir-se em dois e a exploração que o local de trabalho pode cometer em uma pessoa sem o seu conhecimento é um conceito verdadeiramente assustador que a série cobre especialmente em seus episódios finais.

Sem dúvidas, Ruptura é uma das melhores séries que assisti nos últimos anos. Desde o cuidado técnico para nos mergulhar na alegoria e no mistério, do subtexto crítico e filosófico em torno de temas profundamente realistas, até os arcos dos personagens empáticos, a obra gira sob muitas ideias e aborda muitos elementos para oferecer uma experiência fascinante. Um universo sedutor, dramas reflexivos e uma narrativa compulsiva, Ruptura entra no cenário de melhores obras da telinha na atualidade.

Assista ao trailer:

Ruptura

5

5.0/5
Escrito por

Victor Dellazeri

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