Como todas as celebrações que faziam parte da nossa vida, a cerimônia de premiação do Oscar 2021 precisou se adaptar devido à pandemia de coronavírus. E, com um certo período de atraso, às mudanças sociais. Com a lista dos indicados, já foi possível observar uma maior diversidade de gênero e raça entre os escolhidos. Pela primeira vez na história, duas mulheres foram indicadas na categoria melhor direção. Inclusive, a vencedora Chloé Zhao é a segunda mulher a receber a estatueta como diretora e a primeira de origem asiática. 

Ainda que tímidas, essas mudanças rompem com o padrão histórico que concede espaço, quase que exclusivamente, para homens brancos. Como previsto, a diversidade dos indicados se reflete na diversidade dos vencedores. Mia Neal, Sergio Lopez-Rivera e Jamika Wilson, de “A Voz Suprema do Blues”, foram os primeiros vencedores negros na categoria de Maquiagem e Cabelo. Youn Yuh-jung, de “Minari”, se tornou, aos 73 anos, a primeira atriz sul-coreana a vencer na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. 

Aliás, durante o seu discurso, Yuh-jung apontou, com muito bom humor, para a falta de preocupação dos participantes da cerimônia em pronunciarem corretamente seu nome. O que comprova o caminho que ainda precisa ser percorrido pela Academia e pelas estrelas do cinema em reconhecer e prestigiar talentos não ocidentais. A procura por representatividade passa necessariamente pelo reconhecimento do outro e o respeito a cultura dele, o que inclui o idioma. 

É tradição da premiação homenagear os profissionais do cinema que morreram no último ano. Nesta edição, um dos homenageados também era um dos indicados. O ator Chadwick Boseman morreu em agosto de 2020 aos 43 anos. Seu último papel foi no filme “A Voz Suprema do Blues” como Leeve. A atuação lhe rendeu a indicação de melhor ator. 

Especialmente em um ano tão difícil em que o mundo perdeu milhares de vítimas para a Covid-19, o público, ou pelo menos, eu, esperava mais sensibilidade da Academia. Contudo, o in memoriam se limitou a uma passagem (muito rápida) de nomes no telão ao som de uma música animada. O resultado foi, no mínimo, desrespeitoso com os familiares e com a memória daqueles que nos deixaram. 

Outra tradição do Oscar é a ordem dos premiados: os mais importantes no final. Assim, todos os anos, a última estatueta a ser entregue é a de Melhor Filme. Nesta edição, por motivos desconhecidos, Melhor Atriz e Melhor Ator foram os últimos a serem revelados. O público chegou a cogitar que a mudança poderia estar relacionada com a vitória póstuma de Chadwick e uma possível homenagem a ele. Infelizmente, nada justificou a mudança, já que Anthony Hopkins faturou a categoria de Melhor Ator pela sua atuação em Meu Pai. Hopkins não pode comparecer a cerimônia, o que encerrou de forma abrupta a premiação.

Uma das críticas feitas a Academia é o distanciamento dela com o público. A falta da exibição dos filmes nos cinemas aumentou essa distância. Há 20 anos, a audiência da premiação era de cerca de 50 milhões de pessoas nos Estados Unidos. Ano passado foi de 23,5 milhões. Neste ano, apenas 9,5 milhões. As grandes produções, os blockbusters, costumam levar milhares aos cinemas e, consequentemente, a torcerem por eles durante a cerimônia. 

A celebração esqueceu do seu objetivo: comemorar a sétima arte. Sem shows e exibições cômicas, a premiação foi apenas uma listagem de nomes e vencedores. O ponto alto, sem dúvida, foram os discursos. O aumento da diversidade também pode ser visto neles. Diferentes vivências trazem discursos inspiradores e representativos, que relembram a todos que aquele espaço ainda é para poucos e que conseguir romper com os obstáculos estruturais é uma grande vitória. Das conquistas destes lugares que as transformações sociais são feitas. Como Mia Neal disse, esperamos que um dia, ter mulheres e homens negros vencendo o Oscar seja algo absolutamente normal. 

Escrito por

Caroline Oliveira

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